"Se fordes o que Deus quer...", mulheres
Um problema de definição - Primeira Parte
Copio e colo na newsletter de hoje um texto meu que era uma nota, mas virou uma discussão interessante aqui e no Facebook. Eu respondi às duas objeções feitas – de forma bem prática e direta – mas pretendo no texto segundo desta sequência continuar a apresentação da minha tese acerca do assunto: a necessária obsessão feminina.
Para ficar tudo reunido, deixo aqui a seção que chamarei de Primeira Parte. A Segunda e última, até o momento, transcreverei e será publicada amanhã.
Nós as mulheres, se tem uma característica masculina que deveríamos imitar é a completa obsessão por um assunto por um tempo longo e demorado.
Edith Stein fala disso numa das palestras publicadas em seu livro “A Mulher”, em que ela afirma que o homem tem uma faculdade natural de dirigir sua atenção para algo muito específico por um longo tempo, conhecê-lo por dentro em todas as suas estruturas. É daí que temos o avanço de tantos asssuntos em matéria de tecnologia nos últimos anos.
A mulher, por naturalmente ser aberta a “tudo que é amplo”, acaba se interessando por muitas coisas ao mesmo tempo. Mas essa capacidade obsessiva por um ou dois assuntos seria muito útil a nós no que se trata de desenvolvermos a nossa individualidade, os pensamentos que nascem de nossa voz interna e nos permitem realizar coisas no mundo de forma mais concreta.
Recentemente li um artigo que dizia em meias palavras que a mãe quando pare só quer ser e saber da sua criança. E ela tá certa. A mulher precisa aprender a ser obcecada pelas coisas que ela deseja criar, tal qual os homens são. Talvez a maternidade seja um propulsor disso — mas não precisamos depender só dela.
Primeira objeção: “Mas as mulheres não podem ser como os homens, isso seria contra sua natureza.”
Minha resposta:
Edith Stein também descreve a respeito disso, de como estar aberto ao amplo nos possibilita olharmos as coisas de um ponto de vista mais orgânico. E em seus artigos acerca de existirem profissões masculinas e femininas, também chega à mesma conclusão: a mulher não deveria ser igual ao homem, mas – sendo mulher – realizar a sua missão feminina.
Ao primeiro momento, no entanto, é necessário começarmos de algum ponto. Daí utilizei o modelo da “obsessão masculina”. O que eu vejo na minha experiência é que as mulheres se sentem bem mais perdidas em seus interesses do que os homens. Ou pelo menos não conseguem discriminar o que desejam fazer no momento, não importando se uma ou mais coisas ao mesmo tempo.
Acrescento: não é exclusividade do homem a capacidade de ser obsessivo. Nós mulheres também temos os assuntos pelos quais nos dedicamos. Mas, parece-me, que mesmo investigando, persiste em nós uma certa imaterialidade. Não achamos que conseguimos construir ou fazer nada e, por isso, frustramo-nos. Será que estamos escolhendo devidamente e com consciência os assuntos pelos quais nos interessamos? Será que esses assuntos são o devido fim da nossa lma, daquilo que almejamos?
Segunda objeção: “Mas as mulheres nem os homens podem ser completamente obcecados por coisa alguma, pois isso não faz bem.”
Minha resposta:
Dizer isso é chover no molhado. O homem mediano pode não compreender, mas se fossêmos sempre comedidos nada na história haveria sido feito. Ora, para citar exemplos bem próximos das mulheres: Edith Stein, para ser mais sensata, não teria tornado-se Santa Teresa Benedita da Cruz na sua obssessão pela Verdade; Joana não teria se tornada Santa Joana D’Arc na sua obssessão em defender a unidade da França; ou algo mais simples: Mary Ann Evans não seria George Eliot (sic!). Dá para ver, nessa pequena seleta que fiz, que quando a mulher adota a sua natureza obsessiva, ela não foge ao que é, pelo contrário: torna-se mais a si mesma em excelência. Se seguissêmos apenas a voz do a razão, que na verdade é a voz do Tentador, nunca seríamos ateadoras de fogo, nunca faríamos obra alguma.
A verdade é que ao realizar aquilo que Deus pede de nós, faremos coisas que os homens não compreenderão. Kierkergaard fala disso em “Temor e Tremor”. Existe um passo na fé que é justamente não ser comedido, não ser pouco, dar Tudo pelo Tudo - nas palavras de S. João da Cruz. E isso não é teoria: é a vida humana na prática.
Quando digo para a mulher: seja obssessiva pelo que você deseja criar, é porque estou vendo que neste ato deliberado e livre ela está criando algo que só ela pode realizar, só ela pode ser. A obsessão não é necessariamente uma cegueira.
Mas isso fica para o próximo artigo.
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Obrigada por me ler. Este texto vai ficando por aí.
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