Esse quam videri
Ou como as virtudes brilham e iluminam e alguma coisa para aprender com isso.
“Muitos desejam não tanto ser, mas parecer dotados da verdadeira virtude… Não há amizade onde uma das partes não quer ouvir a verdade e a outra está pronta para mentir.”
— Cícero, De Amicitia
É muito comum para quem nasceu na era das redes sociais achar normal compartilhar sua rotina e práticas com os seguidores. Uma coisa que eu noto é que a maioria dos que usam os stories, seja de modo público, seja de modo privado, também gosta de divulgar um bom hábito ou boa prática sempre que consegue adquirir algum deles. São os casais que fazem declarações bonitas mensalmente, as mães que postam os talentos de seus filhos promissores e os influenciadores que postam suas leituras, hábitos, costumes admiráveis – nunca o contrário, claro.
Particularmente, não fugi a essa tendência em todos esses anos de Instagram e Facebook. As coisas só mudaram um pouco de uns anos para cá – quando percebi que minha rotina não era lá tão digna de nota e postar tudo demandava um tempo do qual eu não mais dispunha. As coisas começaram a acontecer muito rápido, de modo que eu não conseguia mais dar conta de fazer as necessárias atualizações aos meus três, porém fiéis, seguidores. Ao mesmo tempo, outro movimento em mim, algo mais substancial, mudou: perceber que as certezas já não eram tão fáceis de serem fabricadas interiormente e que eu já não estava tão resoluta a respeito das misteriosas leis da vida, quem dirá escrever um textão de considerações a respeito do que julgava certo ou errado. Sinto sincera vergonha de muita coisa que escrevi na Internet algumas vezes e confesso que quando aparece algo nas lembranças, finjo que não é comigo e ignoro de tanto constrangimento. Ah, nossos vinte e poucos anos e todas aquelas convicções...
Quando comecei a perceber com mais atenção o que as pessoas diziam de mim ao me elogiar – e isso não há muito tempo – notei que elas indicavam em mim coisas que eu antes queria ser e agora posso perceber que a muito custo pude me tornar. Por vezes, vivo tanto tempo dentro da minha própria cabeça que acabo não conseguindo mensurar o real impacto de minha presença no mundo, muitas vez até fugindo da avaliação alheia para poder eu mesma – e só – me julgar.
As tentativas de me expor um pouco mais que não chegam a desabrochar vêm ainda de um medo muito latente de que talvez eu não seja forte o suficiente para o desconforto da crítica. Só que esse medo da exposição natural e inevitável impede também que eu perceba meus reais avanços e melhoras simplesmente porque, ao me fechar para o que os outros dizem, fecho-me a tudo o que dizem.
Aí está o ponto: na Internet, a eu de alguns anos atrás buscava de algum modo a avaliação que, aqui fora, na vida comum e discreta, escolhia ignorar. O erro estava em esperar de desconhecidos e pessoas que não me conhecem dentro de nenhum contexto, além daquele virtual, a medida honesta do que eu exibia.
Sem querer levar essa discussão para um lugar sociológico, penso que talvez se eu tivesse percebido mais anteriormente que eram os comentários e correções próximos os quais deveria ouvir, talvez as consequências de despejar o que eu fazia nas redes não tivessem causado tantos problemas para mim. Mais do que isso: compartilhar a conquista de bons hábitos, de rotinas e certa organização não precisariam vir com a ideia de uma Aline cristalizada, uma vez que indicadas dentro de um momento específico da minha vida eu perceberia que não seria e não é ainda possível manter rotinas e programações fixas porque o cotidiano por si mesmo é um ciclo e, principalmente por ser mulher, essa roda gira ora com mais velocidade, ora com velocidade alguma, ora embaixo, ora em cima.
Semestre passado, tive pequenas experiências que me fizeram perceber que alcançara certas coisas que julgava impossíveis para mim. E se não digo exatamente que conquistas foram essas é por não desejar criar para este pequeno público que me lê agora uma imagem minha que não existirá, talvez, ano que vem. Por outro lado, neste momento, foram perceptíveis em mim para pessoas atingidas pela minha companhia durante um curto período de tempo - sendo nessa proximidade o suficiente e sem exagero impressionadas por alguma característica positiva da minha personalidade. E elas se mostraram impressionadas de forma espontânea, sem que eu pedisse ou fizesse por onde, pois o melhor elogio ainda tem a graça de não ser solicitado.
O que tenho aprendido é que nossas boas qualidades – as adquiridas ou inatas – são como os raios do sol, que não iluminam o subterrâneo e fechado, mas somente aquilo que se encontra aberto e disposto, de modo que cada coisa – planta ou pedra – recebe de sua luz quente e vivificante somente o que pode, quer ou precisa. E essa receptividade é definida pelo outro, não por nós. Não há influência real e eficaz que seja exercida de forma impositiva. Por mínimo que seja, é necessário que haja da parte recebedora algum tipo de acolhimento e identificação até. Como uma pessoa de natureza pouco impulsiva e enérgica sempre e sempre tenho partilhado dessa ideia – e tenho estado mais convicta disso a cada dia que vejo o sol se por diante de mim.
Hoje eu entendi que não me cabe mostrar meus dons e talentos a todo custo, nisso incluídos os bons hábitos que vou alcançando, as falhas que pouco a pouco consigo corrigir. Essa tarefa é dada a quem precisa e quer reconhecê-los. Do contrário, é mais fácil que haja revolta, despertar de intrigas e invejas – situações infrutíferas e dispersantes de toda boa atividade. Tenho que admitir, porém, que estando num grupo, cabe a mim ter noção da maneira como posso me integrar a ele e, no meio do processo, perceber no contraste com os outros o que eu devo melhorar em mim mesma. A rede social, quando usada como mera vitrine, não permite a criação de uma comunidade. Mostrar-se por mostrar é cavar um abismo entre si e outros.
“Esse quam videri” é uma frase extraída do Tratado da Amizade, de Marco Tulio Cicero. Quando a conheci, li o livro para entender melhor seu contexto, embora desde que a vi pela primeira vez algo em mim reconheceu seu sentido no que ela abarca do que eu chamaria de orientação subjetiva: antes de se dirigir aos outros, foi a mim mesma que ela se comunicou. Desde então, portanto, dou-lhe a forma de uma máxima que vez por outra me sobe ao coração em momentos nos quais pulsa alguma insatisfação ínterior. O que me atraiu nessas palavras, posso dizer, foi a ideia de que o ser bem construído emana na forma, na aparência, enfim, no que os demais vêem de nós. A sentença é autoexplicativa: não se faz necessário mostrar aquilo que nós somos. O que é nosso, bom ou mal, vigora e emerge em cada ação nossa e chega bem antes de nossas palavras justamente por seu fundamento.
Ainda usando o exemplo das superfícies que os raios solares alcançam, digo que cada um recebe de nós o que seu intelecto é capaz de perceber. Como os significados das palavras no dicionário com uma, duas, três entradas. Para os mais familiarizados com elas, mais potenciais sentidos podem adquirir. Não adianta, por exemplo, querer mostrar-se organizado num ambiente que não sabe sequer o que é isso.
Essa consciência agora me faz ter mais cautela a respeito do que dizer e mostrar em tempos em que achar mentes honestas e gentis é tão difícil. Também me alerta para a possibilidade de que meus próprios preconceitos quanto ao talento alheio podem ser fruto do meu despreparo, lentidão e ignorância, não um julgamento real dos outros.
Por fim, entre mostrar e esconder, minha chegada aos primeiros anos da maturidade traz consigo um chamamento à reserva e à prudência nunca tido antes. Não é minha intenção fazer aqui um elógio à timidez e ao acanhamento, claro, mas olhar com sobriedade para a ideia que tenho de mim e saber, na verdade, separar: isto eu sou, isto não sou. Aspiro agora à posse do eu. Não me interessa nada que não seja isso e tudo o que orienta para a dispersão, para mim, é uma desnecessária perda de tempo.
Recordo que o que tento comunicar já aparece nas palavras de São Paulo quando diz:
“Pois em parte conhecemos e em parte profetizamos; quando, porém, vier o que é completo, o que é em parte será deixado para trás. Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino. Agora, pois, vemos apenas um reflexo, como em um espelho, mas, um dia, veremos face a face. Agora conheço em parte, mas, um dia, conhecerei plenamente, da mesma forma que sou plenamente conhecido.”
(1 Cor 13, 9-12)
Embora tenha ficado um pouco difícil de compreender este texto, saibam que foi muito mais difícil para mim escrevê-lo. São coisas que eu vou entendendo à medida que escrevo, transformo em matéria. Daqui uns anos posso expor melhor, quem sabe…



Adorei. "Que Deus nos ajude a permanecer aprendendo a nos abrir, recebendo os raios solares e compartilhando-os com todos os que desejam recebê-los! O Tratado da Amizade é maravilhoso.
Que texto sensacional!
Obrigada, Aline, por compartilhar esses raios de sol da maturidade.
Realmente ficou difícil de entender em algumas partes. Mas, no geral, me fez lembrar deste versículo:
“Seja outro o que te louve, e não a tua boca; o estrangeiro, e não os teus lábios.” (Provérbios 27:2 - ARA)