A jornada da leitora
— uma série.
Você era uma criança demasiado quieta, introvertida e que não sabia muito como expressar aquilo que sentia. Até que um dia foi apresentada às letras por algum adulto dizendo que se tratava de algo muito importante: LER. Pouco tempo e foi como quando você aprendeu a andar: não se lembrava mais de como era a vida sem isso. A leitura estava lá: para onde você olhava, conseguia decifrar o que quer que fosse. Com acentos, hífens e o escambau: as leituras te perseguiram e era uma brincadeira divertida. Não cansava como esconde-esconde e pega-pega. O livro era parado, parado como você gostava de ficar. Dali nascia uma amizade bem perfeita. Um romance até.
Mas quando lá pelos seus dez anos, um aparelhinho bem diferente, que só adulto tinha passou a ser vendido a toque de caixa e você, como toda pessoa da sua idade, também incomodou, incomodou, floreou, até que seu pai lhe deu o dele, velho, comprou um novo para si. Pelo menos um celular com câmera, que aguentava umas três músicas e vinha ainda com bluetooth. Massa demais. Mas o caminho da biblioteca passou a ser mais distante, trocado pelo da bodega que vendia os créditos de 10, 20 e seu parco dinheirinho ia apenas para continuar vendo as notificações no Facebook, o que durava alguns minutos, e ler alguma coisa em um blog qualquer. Não existia abundância de Wi-Fi e sequer 4G. Apenas a boa e velha banda larga de 2.5 GHz (quando muito). Os teus livros, ainda, esquecidos. Não se via mais tua mão outrora escondendo um ou dois volumes abrigando-os da chuva que caia repentina nos meios de março.
Cresciam teus seios e pernas, mas tuas leituras diminuiam, magrinhas e cada vez mais escassas. Tu dormias olhando as notificações ou esperando sua chegada, calada, olhando a tela azul do celular. As tuas primeiras sereias.
Foi no curso de Letras, e como fostes parar ali, que tu ainda lias - na verdade, tu lias as coisas da biblioteca da escola, mais fácil: anne frank, uns diários de zlata, mary beg e coisas assim, nada muito ordenado, culto e de substância. Ia com as ondas: tuas ideias só pensando em ser popular, beijar e, talvez, casar.
A tolice durou bem muito, porque nos tempos de faculdade os teus fones agora é que te acompanhavam. Mais uma vez, o celular, lutando contra as possíveis páginas amareladas de um livro. Tomavam tuas horas, entre orações, desejos, medos e choros. Havia muita saudade e solidão dentro de ti? O que um livro poderia fazer? Não era deles de que precisava. Gostavas de ficar devaneando a vida que queria - mal sabia que o tempo que perdias um dia seria cobrado. E este, não leu? E aquele, nunca? Não, não. Ignorante da própria ignorância. Por outro lado, sonhavas com ser escritora. Bem achavas que terias a mesma sorte das garotas donas dos blogs que te faziam perder as horas. Erro número 3487. Não havia mais revista, jornal, editora. O mundo agora lia o que se publicava digitalmente e você nunca se preparou. Sempre para trás, sempre perdida seguindo outros perdidos.
Tua linguagem é pobre, tua religião é muda, não és sincera. Mentes até quando dizes que sabes o que deveriam saber. Não esconde-se do Deus que te criou? Não temes Sua ira? Olhas para trás agora e vê que a vida te fez de boba. Brincou com todos os teus sonhos e os deixou cada vez mais distantes enquanto te colocava para perseguir os ideais que não servem a ninguém. Dormiu no ponto, agora acabou, Josefa.
Não adianta teimar em ser uma grande escritora, porque nem para copywriter te querem. Tua escrita enterrada está junto com aquela alma que um dia jurou amar os livros e lhes ser fiel para sempre. Não existe escrita sem devoção. E tu és infiel, infiel e mentirosa. Porque dizes “um dia escrevo” e nunca, nunca cumpres com tuas promessas. Vives já tão nova de um passado não muito antigo e lamentas as coisas que deixou de fazer há pouco tempo atrás. Ouves as vozes da tua loucura e elas riem de ti ao mesmo tempo. Não existe amigo, amor, pai ou mãe. Finalmente descobristes que és só. E só estarás. Porque daquele que foi teu amigo, único amigo, tu te afastes por um brilhinho qualquer de luzes artificiais.
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Obrigada por me ler. Este texto vai ficando por aí.
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